29 março 2012

Momento propício

É em um momento propício que as decisões são tomadas, os argumentos são refletidos, os investimentos são feitos, novos projetos são inicializados.

Um momento propício é um mínimo espaço de tempo que não é causado e nem planejado, ele é apenas reconhecido. Reconhecê-lo não é uma tarefa fácil pois o momento propício é ligeiro, não ostenta delongas e pode facilmente ser confundido com um outro momento qualquer.

Querer antecipar os acontecimentos muda todo o ambiente em que eles estão envolvidos, por isso violar um momento propício é como provocar uma situação incômoda - só não parece natural.

É na circunstância desse momento ínfimo que se é capaz de distinguir a ausência do silêncio, os problemas das situações.

É em um momento propício que a cortina se abre, a magia acontece e as peças se encaixam.

As peças sempre se encaixam.

02 fevereiro 2012

Enigma

Só não vê quem não quer ver.

Os sonhos são grandes, as esperanças ainda maiores, mas os passos não têm o mesmo ritmo e nem parecem ter mais o mesmo destino.

Os gestos falam por si só e não dizem nada.

A verdade é que no fundo de cada pessoa há um enigma impenetrável.

... E ela já não pode insistir a impaciência do coração.

26 outubro 2011

Não seria bom?

Se existisse alguém para avaliar a sua parte racional e emocional, colocar seus valores e princípios em uma balança, levar em consideração o que você já passou, o que você aprendeu, o que você ainda consegue ou não relevar?

E se esse alguém te mostrasse o caminho?

Projetasse suas opções de futuro a partir do seu presente, comparasse com suas ambições e te entregasse um resultado da escolha que te dará mais sucesso, da opção que te fará mais feliz?

E se essa pessoa entendesse o que você busca e encontrasse o que você precisa, como seria?

Não seria bom?

E se, de repente, essa pessoa fosse você?

10 setembro 2011

Você pode sentir? Sinta.

Você já não mora mais na mesma casa, já não passa mais tardes desocupadas comigo, já não tem mais tanto tempo para conversar.

Sua vida tomou outro rumo. A minha também, eu te contei? Meu dia a dia não é mais o mesmo. Minhas opiniões, meus objetivos e minhas prioridades mudaram – a pessoa que você conhecia mudou.

Mas eu não abandonei o milk- shake de ovomaltine, ainda vivo gripada, ainda dou exemplos malucos para a realidade e ainda levo comigo o que aprendi com você há tanto tempo.

Passaram-se semanas e meses, anos talvez, mas sei como contar a parte da sua história que eu conheci, detalhe por detalhe, de memória até. Você se impressionaria, acredite.

Vez em quando lembro das viagens que fizemos, das conversas que tivemos, do tempo que compartilhamos o mesmo caminho, que você ouviu meus problemas, que eu te dei meu ombro pra chorar.

Vez em quando ouço músicas que me lembram você e nós.

Dá saudade, e que saudade!

Onde você está agora? Conte-me seus novos sonhos, conte-me da sua família, o que mudou desde então?

Aquele apelido? Você ainda pode me chamar assim, não perca a liberdade que tinha.
Permita-me interessar por sua nova vida, se interesse pela minha também.

Eu te conto, mas antes, pare por um segundo, olhe nos meus olhos: o que você vê?

Não, não diga nada agora.

Sinta a falta que sinto de você, sinta meus olhos felizes por te ver, sinta no ar a vontade que tenho de te ter ao meu lado como antes, mesmo tudo sendo diferente agora, você pode sentir?

Vem aqui, me dá um abraço. Sentir é melhor do que falar e ouvir.

Sinta, eu não me tornei uma estranha.

28 agosto 2011

Seu perfume

Seu perfume espalhou-se como uma brisa pelo quarto naquela manhã.

Você se aproximou devagar para que eu não notasse sua presença, calculando cada movimento, cada passo e cada respiração.
Você dizia gostar de me ver dormir, de compartilhar a paz que eu expressava sentir.

Observava-me como se eu fosse a essência mais valiosa do mundo e eu amava isso, então mantive meus olhos fechados para jogar meu jogo, seu jogo, nosso jogo.

Você deitou ao meu lado, ajeitou cuidadosamente meu cabelo atrás da orelha, deixou a mão correr pela minha face com carinho, tocou meus lábios, me beijou a testa.

"Você é minha garota", sussurrou. E sorriu.

Você sorriu.

30 julho 2011

Busca infinita

Não sei quantas já se foram, quantas ainda irão.

Mas, hoje, a página que leio da minha vida se faz hipócrita.

Entre um parágrafo e outro ouço palavras sussurrando entrelinhas como se pedissem socorro, tentando, em vão, juntar o que tenho sido com o que quero ser.

Perdem o fôlego, uma a uma, nocauteadas por um script sem rabiscos, acomodado, de vida própria e pouca criatividade. Patético, em suma.

Um script que me faz esquecer que não basta ser carne e osso: se não tocarmos o coração das pessoas, nada do que vivemos tem sentido.

O desafio de cada nova página é tornar o final valioso.

Juntar as coincidências, as afinidades, os acontecimentos inesperados e justificar o futuro com o passado.

Um conflito. Um silêncio. Uma busca.

Sábio, aquele que se prepara para receber exatamente o que almeja e reconhece a sutileza da oportunidade quando ela chega.

14 junho 2011

Não é preciso muito, sabe?

O dia não precisa ter 25 horas.
Os telefonemas não precisam ser intermináveis.
A água não precisa transbordar para que se mate a sede.

Sabe a ponta de esperança que acende quando se ganha uma chance a mais? A gratidão de receber o que se pede meio a um desespero? A vontade de avançar o tempo para conseguir o que se quer?

Sabe? Mais que saber, é preciso sentir.

É preciso causar o riso, acolher o medo, esquentar a alma.

Esperança.

Basta um gesto de carinho para recomeçar.

12 agosto 2010

Passagem

Por um momento, eu jurei ver um rosto conhecido em meio a esta multidão.

Esfreguei os olhos, procurei, chamei e corri com todo o fôlego que tinha.

Minhas desculpas por esbarrar nas pessoas não eram suficientes para calar os murmúrios irritados, mas elas não sabiam, elas não entendiam. Também, como poderiam? Nem eu entendia.

Eu buscava em vão alcançar a despedida que nunca existiu.

Minha vontade de dizer tornou-se um nó em minha garganta, engoli a dor que me pegou de surpresa e senti meu corpo inteiro esfriar.

“A vida e a morte são demasiadamente implacáveis para que sejam puramente acidentais”, ouvi dizer.

Perplexa, exigi acordar de algo que eu sabia não ser um sonho.

Esperei que as câmeras aparecessem, que as risadas começassem, que me dissessem que aquilo tudo era uma brincadeira – de muito mau gosto.

Continuei correndo, incrédula, a procura da vírgula, do detalhe que faltava, da peça que completaria o quebra-cabeça.

Em meio à multidão, uma mão agarrou meu braço com força, puxando-me para trás e me implorando esmolas, como se eu tivesse o poder de dar vida por algumas moedas.

O mundo não tinha parado, mas, por um momento, eu tinha.

Cada um caminha sem saber o quando e o como, somos todos passageiros nesta viagem só de ida e estamos todos indo para o mesmo lugar.

Relutei:

- Desculpe-me senhor, mas estou aqui só de passagem.

Linkwithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...