30 julho 2011

Busca infinita

Não sei quantas já se foram, quantas ainda irão.

Mas, hoje, a página que leio da minha vida se faz hipócrita.

Entre um parágrafo e outro ouço palavras sussurrando entrelinhas como se pedissem socorro, tentando, em vão, juntar o que tenho sido com o que quero ser.

Perdem o fôlego, uma a uma, nocauteadas por um script sem rabiscos, acomodado, de vida própria e pouca criatividade. Patético, em suma.

Um script que me faz esquecer que não basta ser carne e osso: se não tocarmos o coração das pessoas, nada do que vivemos tem sentido.

O desafio de cada nova página é tornar o final valioso.

Juntar as coincidências, as afinidades, os acontecimentos inesperados e justificar o futuro com o passado.

Um conflito. Um silêncio. Uma busca.

Sábio, aquele que se prepara para receber exatamente o que almeja e reconhece a sutileza da oportunidade quando ela chega.

14 junho 2011

Não é preciso muito, sabe?

O dia não precisa ter 25 horas.
Os telefonemas não precisam ser intermináveis.
A água não precisa transbordar para que se mate a sede.

Sabe a ponta de esperança que acende quando se ganha uma chance a mais? A gratidão de receber o que se pede meio a um desespero? A vontade de avançar o tempo para conseguir o que se quer?

Sabe? Mais que saber, é preciso sentir.

É preciso causar o riso, acolher o medo, esquentar a alma.

Esperança.

Basta um gesto de carinho para recomeçar.

12 agosto 2010

Passagem

Por um momento, eu jurei ver um rosto conhecido em meio a esta multidão.

Esfreguei os olhos, procurei, chamei e corri com todo o fôlego que tinha.

Minhas desculpas por esbarrar nas pessoas não eram suficientes para calar os murmúrios irritados, mas elas não sabiam, elas não entendiam. Também, como poderiam? Nem eu entendia.

Eu buscava em vão alcançar a despedida que nunca existiu.

Minha vontade de dizer tornou-se um nó em minha garganta, engoli a dor que me pegou de surpresa e senti meu corpo inteiro esfriar.

“A vida e a morte são demasiadamente implacáveis para que sejam puramente acidentais”, ouvi dizer.

Perplexa, exigi acordar de algo que eu sabia não ser um sonho.

Esperei que as câmeras aparecessem, que as risadas começassem, que me dissessem que aquilo tudo era uma brincadeira – de muito mau gosto.

Continuei correndo, incrédula, a procura da vírgula, do detalhe que faltava, da peça que completaria o quebra-cabeça.

Em meio à multidão, uma mão agarrou meu braço com força, puxando-me para trás e me implorando esmolas, como se eu tivesse o poder de dar vida por algumas moedas.

O mundo não tinha parado, mas, por um momento, eu tinha.

Cada um caminha sem saber o quando e o como, somos todos passageiros nesta viagem só de ida e estamos todos indo para o mesmo lugar.

Relutei:

- Desculpe-me senhor, mas estou aqui só de passagem.

28 fevereiro 2010

Era preciso sede

Tudo era água e por isso saciava-se a sede.

Não era preciso estudar o mercado, procurar produtos ou ter dinheiro. Só era preciso ter sede.

Quem tinha sede, logo saía correndo até a fonte e lambuzava-se com água.

Ás vezes, logo pela manhã, formava-se uma fila ao redor da fonte e, um a um, sentiam cada gota gelada espalhar-se por seus corpos e satisfazer a vontade.

A água não era vendida e não vinha em quantidade, ninguém sofria de efeitos colaterais porque a água não tinha contraindicações.

Para quem tinha sede de viver, era preciso apenas que tudo fosse água.

E era.

Celebravam todos juntos porque tinham sede e tinham água. Até que faltou a cor, o sabor, o aroma. Logo, encontraram o vinho.

Nunca mais existiu celebração, porque nem todo mundo tinha vinho e ninguém mais queria dividir. Ninguém mais queria beber água e a fonte secou.

Antes do vinho, tudo era água.
Depois, a sede nunca mais foi saciada.

29 dezembro 2009

Por quê?

Pergunto eu.

O encanto pode acabar, o momento pode passar, o calor pode esfriar.
E quem vai dizer que não?

Não tenho o poder de fazer o vento soprar mais forte, o sofrimento desaparecer, as dúvidas se resolverem nem fazer com que qualquer medo se torne supérfluo.

Eu simplesmente não posso dizer que dará certo. Posso dizer apenas que tenho motivos suficientes para permanecer onde estou.

Eu estou aqui.
Você está aqui.

Por que não pode ser simples assim?

08 novembro 2009

Aniversário

Eu penso o que aconteceria se ninguém estivesse aqui para lembrá-lo.

Mais um aniversário e eu não preciso necessariamente viver para existir. Eu existo nas palavras que escrevi, nas coisas simples que te dei, na foto do seu mural, na sua memória.

Se minhas coisas e lembranças fossem apagadas, eu seria pela metade, eu seria "quase".

Como quase presença é falta.
Como quase real é imaginário.
Como quase alguém, eu seria ninguém.

No fim, é cada aplauso que faz minha vida continuar depois que apago a vela.

27 outubro 2009

Manhã de outubro

Os primeiros raios de Sol invadiram o quarto e o céu revelava um azul diferente.

Não havia nuvens, não fazia frio, não havia vento. Ainda assim, ela notou um azul diferente.
Naquela manhã de outubro, deitou-se ao Sol sentindo o calor percorrer seu rosto e lhe secar as lágrimas.

Piscou os olhos ainda um pouco inchados, esperando que a cura viesse por si só, mas nada aconteceu.

Não sabia descrever ao certo o clima que permanecia no ar.

Fraqueza, descrença, tristeza.

O peso que agora havia sobre seus ombros começara a incomodar e ela sabia que preferir não pensar sobre o assunto não resolveria.

Pediu forças para que não fizesse do caso um grande caso, para que não se deixasse abater por opiniões alheias e conseguisse, de fato, acreditar no que desejava acreditar.

Desta vez, era preciso ser forte como nunca havia sido antes. Ela sabia que, por mais que caminhassem ao seu lado, teria de caminhar sozinha e encarar esta nova jornada como uma oportunidade de aprendizado, superação, vitória.

A partir daquela manhã, ela teria que saber sentir-se um tanto bem maior.

03 outubro 2009

Por acreditar, conseguiu

Quando o vento cresce, parece que chove mais.

Mas você sabe que a chuva é só chuva.

Decidiu que a trilha sonora de sua vida seria perfeita, mesmo com o dia nublado, o ônibus lotado, a correria e as poucas horas de sono que agora fazem parte da sua rotina.
Foi feliz porque não esperou situação alguma, não procurou motivo algum, não pediu explicação alguma.

Decidiu simplesmente acreditar e, por acreditar, conseguiu.

Que vejam o que eu vejo. Na simplicidade e vastidão do seu ser, você merece o céu e a terra.

Desejo que você tenha paciência, apenas. Tudo há de vir se você quiser.

Que você tenha chuva, quando é preciso chover. Mas que, mesmo chovendo, você não vise recompensa, não espere elogios, nem lucros, nem fama.

Que você seja assim, como o Sol.

Sempre.

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